segunda-feira, 21 de março de 2011

Monólogo do Desassossego: Diálogos teatrais com Fernando Pessoa



"Nós nunca nos realizamos.
Somos dois abismos - um poço fitando o céu"

(Fernando Pessoa, o Livro do Desassossego)



Durante boa parte da minha jornada literária na Universidade, tive dois companheiros inseparáveis: Fernando Pesssoa e o seu Livro do Desassossego. Eram tão íntimos de mim que eu chegava a carregar a pesada edição da Cia das Letras pelo Campus. Certamente, isso não era um sacrifício porque eles eram mais que um escritor e sua obra, eles representavam (e representam) a genialidade e a sensibilidade na Literatura, que é reflexo dos meus sentimentos, a Literatura como catalisadora e caminho para a catarse das mais profundas emoções; nessa dádiva, Fernando Pessoa é Mestre. Ter o Livro do Desassossego na cabeceira poderia ser doloroso e depressivo, mas como relata a sábia citação introdutória acima, não podemos ignorar o nosso próprio abismo e, estar nele em algumas, ou em muitas épocas da existência é ingressar no estado da mais devastadora dor, nessas horas precisamos de um bom amigo impresso ao nosso lado que nos compreenda.



"Um hálito de música ou de sonho,
qualquer coisa que faça quase sentir,
qualquer coisa que faça não pensar."



Muitos artistas sofreram na inquietação da solidão e da angústia, e foi neste desassossego que eles mais tiveram momentos de alumbramentos quando suas Artes vinham à tona, o Belo através do Horror, o Riso através da Dor. Fernando Pessoa é um deles, capaz de inspirar uma série de artistas que se identificaram com os seus desabafos. Pessoa representa tanto de nós e para nós. É um ser universal.
Suas revelações existenciais marcam nossa própria existência. Os efeitos de tais revelações são perturbadoras e, ao mesmo tempo, libertadoras porque há uma identificação daquilo que mais tememos, mas que precisamos para amadurecer e se autopreservar.







Decerto, o Livro do Desassosssego inspirou muitos artistas, uma delas, passou pela minha vida através da Dança. Era Marilena Ansaldi, renomada bailarina e atriz que ficou afastada dos palcos por 12 anos. Fui assistí-la no teatro Alfa de São Paulo em 2005 quando ela performou um Monólogo baseado em fragmentos dessa clássica obra de Fernando Pessoa, e nunca me esqueço de como a jornada dela foi o desassossego que dilacera no início, meio e fim de vários momentos existenciais. Ela se afastou de tudo que era vida - o palco. Lutou muito ao enfrentar a crise de pânico e a depressão. Desabafou a todos: "... fui abandonada por mim, isto é deixei de querer e uma náusea existencial tomou conta de mim. Parar, abandonar, matar todas as paixões. A lucidez que não conseguiria mais fazer acontecer os meus espetáculos. Acabara o vigor, a fúria, a obsessão e a entrega desvairada do meu corpo e mente... nesses últimos 12 anos fiquei escondida de tudo e de todos... e aos poucos sou tomada por um surto criativo depois de 12 anos estéreis. Aqui estou para oferecer essa fagulha do que resta de mim. Para dizer esses anos mortos, usarei como meus os fragmentos do Livro do Desassossego do único , genial, Fernando Pessoa."

E ela se desnudou no palco. Marilena corpo, alma e coração. Emoções, sensações latentes. E Pessoa em sua voz, em seu solo. Recordo-me que saí do teatro maravilhada e em choque. É impossível não entrar em crise no Desassossego Pessoano após intensa e catártica experiência. Uma crise tão contraditória. Intragável, serena, furiosa, lírica, angustiante, libertadora.. Eu gosto assim...desta crise que desnuda minhas emoções.






Este fragmento foi o momento ápice, o clímax arrebatador. Marilena curvada para baixo, olhos no chão, voz trêmula...muita chuva e angústia e muito de Fernando Pessoa no desassossego do seu coração.

Paisagem de Chuva


"Em cada pingo de chuva a minha vida falhada chora na natureza. Há qualquer coisa do meu desassossego no gota a gota, na bátega a bátega com que a tristeza do dia se destorna inutilmente por sobre a terra. Chove tanto, tanto. A minha alma é húmida de ouvi-lo. Tanto... A minha carne é líquida e aquosa em torno à minha sensação dela. Um frio desassossegado põe mãos gélidas em torno ao meu pobre coração. As horas cinzentas alongam-se, emplaniciam-se no tempo; os momentos arrastam-se. Como chove! As biqueiras golfam torrentes mínimas de águas sempre súbitas. Desce pelo meu saber que há anos um barulho perturbador de descida de água. Bate contra a vidraça, indolente, gemedoramente, a chuva..."



Post por Cristiane Costa

2 comentários:

  1. Que magnífico!!!!!!! Fernando Pessoa é meu Mestre tb... Obrigada Cristiana!
    Vou vir sempre no seu blog!
    Abraço.

    ResponderExcluir
  2. Gabi, obrigada pelo carinho. Pretendo voltar ao Glamour literário. Estou me organizando nas leituras. Abraços.

    ResponderExcluir