sábado, 7 de agosto de 2010

Resenha: Édipo Rei, Tragédia Grega de Sófocles em A Trilogia Tebana



A tragédia é uma das formas artísticas de drama mais fascinantes no mundo, especialmente na Literatura Grega, e uma das mais dramáticas e célebres é Édipo Rei, de Sófocles, parte da Trilogia Tebana que conta também com as tragédias Édipo Rei, Édipo Colono e Antígona (Editora Zahar). Para usufruir de sua função emotiva, de ordem bem conflitiva e tensa durante a leitura, é importante entender a estrutura da tragédia, na qual temos dois elementos fundamentais: o coro e a personagem trágica, que são responsáveis pela mola da tragédia, dinamizando o mito trágico. De um lado, o coro que é a personagem coletiva, representando a Polis, os cidadãos; de outro a personagem trágica, individual. Nesta estrutura, há polaridade: o coro que cria tensão exprime seus sentimentos, seus julgamentos, preocupações, questionadas as ações do drama do herói trágico, ora esperançosos, ora temerosos e representam o universo da cidade. De outro lado a personagem individualizada que representa o herói do passado, cuja ação representa o centro da tragédia, o universo mítico. A tensão gerada entre ambos decorre de uma oposição presente x passado, ou seja, o herói trágico que remete passado longínquo, a valores heróicos do passado, de tradições míticas em contraposição aos valores da Polis, dos pensamentos políticos e jurídicos que encenam um debate, questionamento das ações da personagem, ora aproximando-a do presente, ora recordando-a o passado mítico. A dualidade também é dada pelo lirismo do coral e a parte dialogada do drama entre as personagens. No caso de Édipo Rei, o coro é formado pelos anciões de Tebas e está presente em momentos chave como a consulta de Édipo ao cego profeta Terésias, o desespero de Édipo ao desejar morrer após desferir o golpe em seus olhos, e na contemplação do trágico desfecho do herói.

"Infeliz, sua corrida insana isola-o cada vez mais dos homens; em vão procura fugir dos oráculos que nos vêm, do centro do mundo, e que, eternamente vivos, esvoaçam em tomo dele..." (Côro)





A tragédia, por ser uma imitação de uma ação de caráter elevado, deve conter ações e palavras das personagens que justifiquem o verossímil e o necessário, mas também a ação humana não tem força em si mesma para combater a vontade dos deuses. Édipo é um herói trágico que não teve saída de sua própria condição de filho de Laio , rei de Tebas, e de Jocasta e de ter concretizado a maldição de matar o pai, casar-se incestuosamente com sua mãe. O oráculo dos deuses, o Delfos, já havia profetizado que a maldição iria ocorrer. Aconteceu. Tal desafortúnio é de beleza ímpar porque Édipo é perfeitamente o herói humano de uma tragédia com deuses implacáveis, ele é um homem que se equilibra entre a virtude e o vício, um herói “intermediário”, segundo Aristóteles, que passou da felicidade à infelicidade em conseqüência de um erro, além disso, era um príncipe em Tebas gozando de reputação, família, poder. Édipo passa da dita à desdita através de peripécia, quando tentando ouvir do servo da casa de Laio, uma resposta para viver tranqüilamente com Jocasta, livre do destino infeliz, terá o reconhecimento de que assassinou seu próprio pai e gerou filhos de sua própria mãe. Provocará temor e piedade na audiência. Édipo cai no infortúnio em decorrência de um grave erro.





A fim de evitar tal infortúnio, seus pais, ainda quando Édipo era criança, foi oferecido a um servo da casa de Laio para que a criança fosse morta, mas na ocasião o servo teve compaixão e ofereceu para que um Coríntio cuidasse da criança. Já em Tebas, procurando saber quem foi o assasino de Laio, ex-princípe naquela terra, ouviu a verdade através do vidente Terésias de que era o assassino, mas permaneceu incrédulo. Édipo estava predestinado a errar, mas foi advertido pelo oráculo, acusou Creonte de traição e as ações seguintes: a vinda do Corinto anunciando a morte de Pólibo, pai de criação de Édipo, sem nenhum vinculo de sangue; a confissão do servo da casa de Laio de que Édipo era a criança, filho de Jocasta e Laio fazem parte do que culminou na infelicidade do herói. Édipo agia, mas desconhecia que havia maldade em seus atos, só soube depois das conseqüências. Como herói trágico suas ações eram representadas em função de seu caráter – de índole intermediária, entre a mediocridade e a bondade por isso verossilmente pode incorrer em erro trágico.




"Assim não consideremos feliz nenhum homem"



Implacavelmente, Édipo Rei é um grandioso herói trágico, entregue à uma maldição. Não há como não se sensibilizar com tal infeliz destino, por isso as ações do drama tem uma íntima conexão a fim de provocar piedade e temor na audiência (o imprescindível efeito catártico). Dentro deste contexto, no final da tragédia, é que as ações assumem significação e sentido em Édipo, que ele passa a conhecer os atos maus que cometeu sem saber e que eram desventuras determinadas pelos deuses, contras as quais não podia escapar. No Êxodo, que é o desenlace trágico, ele assume o que Apolo lhe causou, mas a catástrofe, o ferimento contra si próprio, foi segundo a sua vontade humana. Mediante a infelicidade, ao saber que era assassino de Laio e esposo de sua mãe, irmão de seus filhos, o autor estipula as ações violentas que sucedem o efeito de compaixão, fere os próprios olhos, os cegando, esta ação é determinada por ele. Aqui é traçado um percurso de ordem emocional e que gera com maior intensidade sentimentos de temor e piedade, ações violentas que a mimese imita. A ação humana é determinada sem a intervenção divina, encerrando assim mais um dramático desdobramento de que o ser humano também é senhor de sua própria Tragédia.


Indicação de Indicação de Leitura Glamour Literário : A Trilogia Tebana - Édipo Rei, Édipo em Colono, Antígona, da Jorge Zahar.
ou
Édipo Rei, Domínio público E-book



2 comentários:

  1. Olá, Cris!
    Estava pesquisando imagens de Édipo Rei e encontrei o seu blog, que é muito interessante. O texto sobre a Trilogia Tebana está muito bom. Parabéns por este espaço.
    Também escrevi um texto sobre o Édipo Rei, depois dá uma conferida se quiser,lá tem outras reflexões sobre a vida, filmes, literatura.
    Segue o link:
    http://wesleyescritosebesteiras.blogspot.com/

    Wesley

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  2. Olá Wesley!

    Obrigada pela visita! Ando estado ausente do blog de literatura mas já estou retomando umas leituras favoritas de Mario Benedetti para postar aqui em breve.
    Eu adoro Sófocles,foi uma dos meus queridinhos nos estudos clássicos da faculdade. Vou também visitá-lo.
    Um abraço,
    Cris

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