sexta-feira, 30 de julho de 2010

Análise Crítica: Vou-me embora pra Pasárgada, Manuel Bandeira


“Vou-me embora pra Pasárgada” foi o poema de mais longa gestação em toda minha obra. Vi pela primeira vez esse nome de Pasárgada quando tinha os meus dezesseis anos e foi num autor grego. [...] Esse nome de Pasárgada, que significa “campo dos persas”, suscitou na minha imaginação uma paisagem fabulosa, um país de delícias [...]. Mais de vinte anos depois, quando eu morava só na minha casa da Rua do Curvelo, num momento de fundo desânimo, da mais aguda doença, saltou-me de súbito do subconsciente esse grito estapafúrdio: “Vou-me embora pra Pasárgada!”.
(Manuel Bandeira)



VOU-ME EMBORA PRA PASÁRGADA




Vou-me embora pra Pasárgada

Lá sou amigo do rei

Lá tenho a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada


Vou-me embora pra Pasárgada

Aqui eu não sou feliz

Lá a existência é uma aventura

De tal modo inconseqüente

Que Joana a Louca de Espanha

Rainha e falsa e demente

Vem a ser contraparente

Da nora que nunca tive


E como farei ginástica

Andarei de bicicleta

Montarei em burro brabo

Subirei no pau-de-sebo

Tomarei banhos de mar!

E quando estiver cansado

Deito na beira do rio

Mando chamar a mãe-d’água


Pra me contar as histórias

Que no tempo de eu menino

Rosa vinha me contar

Vou-me embora pra Pasárgada


Em Pasárgada tem tudo

É outra civilização

Tem um processo seguro

De impedir a concepção

Tem telefone automático

Tem alcalóide à vontade

Tem prostitutas bonitas

Para a gente namorar


E quando eu estiver mais triste

Mas triste de não ter jeito

Quando de noite me der

Vontade de me matar

- Lá sou amigo do rei –

Terei a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada




A evasão para uma outra realidade da diferente do poeta é uma das temáticas de “Vou-me embora pra Pasárgada”, poema de Manuel Bandeira em que o poeta busca uma espécie de paraíso para vivenciar os atos comuns da vida , os quais não puderem ser vivenciados devido à doença. Este poema tem um caráter biográfico a partir do momento que é influenciado pelas aspirações do poeta em buscar a felicidade, que foi impedida devido às dores pessoais. Pasárgada é uma alegoria do paraíso, representante do mito da felicidade no qual Manuel Bandeira tem liberdade de escolher a mulher que quer, na cama que desejar.

Novamente são dois extremos que são abordados pelo poeta: a realidade de dois mundos distintos, o presente e o imaginário; o que se nega e o que se deseja.

Um recurso utilizado neste poema é a intertextualidade; aqui utilizada em forma de paródia, burlesca. A retomada de um poema romântico com intenção sarcástica.

O poema aproxima-se de Canção de Exílio de Gonçalves Dias no sentido de oposição entre o cá e o lá, um cá hostil e um lá acolhedor; no entanto em Gonçalves Dias o poema corresponde a uma idealização do Brasil em oposição a Portugal, devido ao exílio. Bandeira constrói esta oposição entre cá e lá de modo a projetar um futuro que se torna real; uma Pasárgada construída em razão da necessidade de um espírito que busca liberdade e que também prega uma liberdade ao leitor, pois a Pasárgada apresenta – se desprovida de significado na língua. O significado vago permite que a imaginação crie um espaço psicologicamente ideal, livre de qualquer carga social.

A liberdade dada pelo poeta já é observada na primeira estrofe:



“Vou-me embora pra Pasárgada

Lá sou amigo do rei

Lá tenho a mulher que eu quero

Na cama que escolherei...”



Bandeira coloca o sofrimento de lado e resolver ser feliz, agindo inconseqüentemente, livre de obrigações. Neste reino, ele é amigo do rei e pode escolher aleatoriamente a mulher e a cama. Um das características da poesia de Manuel Bandeira é a manifestação do amor, do erotismo, da mulher, da beleza, do desejo que transcendem até mesmo o espiritual como no belo poema Arte de amar “... Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo/ Porque os corpos se entendem, mas as almas não”. A tônica forte do amor como ato físico, que dispensa até a interferência da alma que “... só em Deus (...) pode encontrar satisfação...” Em Vou –me embora pra Pasárgada, o amor e o desejo apresentam-se consideravelmente, despidos de qualquer inibição imposta pela sociedade. Bandeira pode escolher qualquer mulher e qualquer cama. O sexo aparece de forma liberada em oposição ao cerceamento causado pelos valores morais, religiosos e sociais. Na Pasárgada de Bandeira “... tem prostitutas bonitas para a gente namorar”. Neste paraíso, as imagens são colocadas de modo a delimitar o mundo que não traz felicidade ao poeta (“Aqui não sou feliz”) daquele na qual a “existência é uma aventura /de tal modo inconseqüente”.




Recomendo este livro de David Arrigucci Jr :
uma crítica literária à altura de sua inspiração Bandeirense


Este poema retoma elementos diversos da obra poética de Manuel Bandeira – como relatado por Davi Arrigucci “... o confessional, da memória biográfica; o poético-crítico, intelectual e imaginativo, a que não falta o caráter visionário ou onírico da consideração da poesia enquanto transe ou alumbramento – fundindo tudo numa forma especial de balanço de uma experiência poética”.[1]


Com relação à memória biográfica, Bandeira apresenta de forma latente o retorno à infância, que aparece no poema como tempos felizes, tempos no qual o poeta anda de bicicleta, monta em burro brabo, sobe no pau de sebo e toma banho de mar. A Pasárgada de Bandeira alinha todos os tipos de liberdade: a amorosa, a sexual e até mesmo a liberdade de voltar à infância. Considerando a vida de Manuel Bandeira e o convívio que o poeta teve com o tema da morte e da doença, que o fez até mesmo a abandonar os estudos; o poema retrata o tema da infância como um anseio de recuperar o tempo perdido, de reviver a ternura o mito que ficou arquivado na memória. A evasão é a recuperação da infância, pois a qualquer momento o poeta pode parar de brincar e chamar a mãe – d ´ água para lhe contar as historias da infância :



“... e quando tiver cansado

Deito na beira do rio

Mando chamar a mãe-dágua

Pra me contar as histórias

Que no tempo de eu menino

Rosa vinha me contar

Vou – me embora pra Pasárgada


A nostalgia da infância é tema que ressurge sempre na poesia de Manuel Bandeira. Em poemas como “Profundamente”, “Evocação do Recife” e “Infância”, o poeta relembra os tempos de infância e a família. A oposição entre criança e adulto, tempo presente e tempo passado é reconstruída como modalidade de fuga, a ponto de se questionar que o tempo passado pode ter sido bem melhor que o tempo presente, por isso a necessidade de evasão e recuperação destes momentos.


O humor modernista e a retomada de termos tidos como “modernos” são empregados por Bandeira para caracterizar a completude do paraíso chamado Pasárgada. O poeta afirma que lá tem de tudo; uma civilização que tem até mesmo um processo seguro que evita a concepção e telefone automático; ou seja, elementos caracterizadores da vida moderna. A incorporação do cotidiano, tão freqüente no movimento modernista, é utilizada pelo poeta com grande carga poética. Manuel Bandeira é um dos poetas modernistas mais reconhecidos por ter uma temática capaz de transformar temas “triviais” em matéria – prima de sua obra poética.


“... o ideal da poética de Bandeira é o de uma mescla estilística inovadora e moderna, uma vez que persegue uma elevada emoção poética através das palavras mais simples de todo dia. Para o poeta, o alumbramento, revelação poética da poesia, pode dar-se no chão do mais “humilde cotidiano”, de onde o poético pode ser desentranhado , à força da depuração e condensação da linguagem, na forma simples e natural do poema.”[2]


Na última estrofe do poema, Bandeira dá aos versos um caráter de amargura e desespero extremo, cujo campo semântico nos recorda temas como a morte, tristeza e suicídio (“E quando eu estiver mais triste/ mas triste de não ter jeito/ quando de noite me der/ vontade de me matar”). Este recurso serve para destacar a oposição que segue nos versos seguintes, nos quais a Pasárgada é o único local no qual o poeta pode ir e libertar-se deste sofrimento; a Pasárgada que é a solução para as tristezas humanas; quando o poeta estiver no extremo de desespero e tristeza, até mesmo a ponto de se matar; lá ele encontrará a amizade, o amor, o prazer. Na Pasárgada de Manuel Bandeira há liberdade estética e libertinagem.



Citações 1 e 2 , do mais que recomendado livro: Humildade, paixão e morte: A poesia de Manuel Bandeira, de Davi Arrigucci Jr, Cia das Letras.

16 comentários:

  1. Como era de se imaginar, a mesma qualidade e obstinação com que emoldura suas análises de cinema o faz aqui sob o manto da literatura madame. Como me avisara anteriormente, há uma busca solene pelo academicismo, o que só agiganta nossa admiração pela cultura que trasnborda tanto aqui em Glamour literário quanto no madame Lumière. É lícito e bem vindo que os fantasmas a tenha posto a analisar a obra de Manuel Bandeira.

    Beijos

    ResponderExcluir
  2. bem eu achei que a poesia de bandeira faz-no pensar de um mundo alem da realidade onde todos podem se felizes podem tomar decisoes sem pensar no que as pessoas vao pensar um mundo onde todos sao livres e podem dezer o que pensam e de kem pensam onde nem raça ou cor interferam se a pessoa é pobre ou naum no fim só o que importa é ser feliz e si sentir bem consigo mesmo

    ResponderExcluir
  3. Rei, obrigada. Suas palavras me comovem e, vindo de um grande homem da palavra, como você, isso é uma honra. Beijos

    ResponderExcluir
  4. Oi Valeska

    Concordo com você. Existe esta liberdade na poesia de Bandeira que é uma liberdade cultivada diariamente. Uma poesia da vida que tem que existir em todos nós.

    abraços e obrigada pela visita.

    ResponderExcluir
  5. Madame, parabéns pela análise.
    A busca pelo "Paraíso", ou pela idéia de uma realidade alternativa, está presente em todos nós. É como uma forma de escape dos nossos problemas, das nossas angustias, desilusões, medos, etc. Acho que esse "Paraíso" é norteado pelo maior e mais sonhado desejo do ser humano: a liberdade.
    Adoro esse poema...

    Ps. Preciso ir pra Pasárgada!!!!rs

    ResponderExcluir
  6. Olá Gustavo,
    Obrigada pela visita e comentário.
    Penso que precisamos de um caminho alternativo que nos leve a momentos que deveriam ser os principais da vida. O escape é preciso e o vejo como parte essencial de uma vida mais lírica.
    Vamos para Pasárgada!

    ResponderExcluir
  7. Que alcalóides o poeta se refere ?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Classe de substâncias orgânicas nitrogenadas com características básicas

      Excluir
    2. Provavelmente alguma medicação que tomava para sua debilitada saúde... morfina, talvez.

      Excluir
    3. Cafeína, cocaína... quem sabe???

      Excluir
    4. Provavelmente os da classe de alucinógenos que eram usados em sedativos e anti-depressivos.

      Excluir
  8. Pasárgada é o local que eu sonho estar sempre que tenho algum problema é meu refúgio imaginário, esse poema faz parte mim amo Manoel bandeira e parabéns pela análise feita.

    ResponderExcluir
  9. Pasárgada é o meu lugar de refúgio, sempre que estou triste ou decepcionada é pra lá que eu vou em meus pensamentos, e lá, idealizo o meu mundo. Amo esse poema, parece que ele foi feito pra mim beijos e parabéns pela análise amei.

    ResponderExcluir
  10. Interessante saber que a tanto tempo não visitam o blog, e se visitam não deixam comentários. Estou encantada com o que li, está de parabéns Madame! Me ajudou muito a entender o poema, obrigada.

    ResponderExcluir
  11. Para os que curtem Drummond e Bandeira, inaugurei um Blog pictorial, com imagens dos livros de minha coleção. Um guia bacana das características tipográficas e principais detalhes das primeiras edições destes dois poetas gigantes. http://colecaodrummondbandeira.blogspot.com.br

    ResponderExcluir
  12. muinto bon adorei copiei e colei no trabalho de literatura kkkk.

    ResponderExcluir