quinta-feira, 22 de julho de 2010

Análise Crítica: Poética, de Manuel Bandeira (Parte1)


POÉTICA
(Manuel Bandeira)

Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e
[manifestações de apreço ao Sr. diretor

Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o cunho verná-
[culo de um vocábulo
Abaixo os puristas

Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis

Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo.

De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante exemplar com
[cem modelos e cartas e as diferentes
[ maneiras de agradar às mulheres, etc.

Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e pungente dos bêbados
O lirismo dos clowns de Shakespeare

- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.


Desde a primeira leitura, percebe-se que a Poética tem vínculos com a estética modernista. É possível reconhecer pela estrutura poética a utilização de versos livres, de reiterações, de imagens que negam os valores ultrapassados das estéticas anteriores, de supressão da pontuação, etc. Todas estas formas traduzem a liberdade plena de forma, defendida pelos modernistas. O que caracteriza o versolivrismo aqui é uma mudança de atitude e também de crítica : a sílaba deixa de ser a unidade de medida e a combinação de pausas e entoações passa a ser fator relevante.







Bandeira emprega várias imagens para iniciar o processo de negação dos valores poéticos do passado e depois de defesa de um lirismo libertador; imagens que são modeladas em linguagem cotidiana e que estão baseadas na associação destas idéias de modo a despertar o interesse por uma atualização da inteligência artística . O poema Poética de Manuel Bandeira é um dos paradigmas da estética modernista e uma das mais conhecidas bandeiras de luta dos modernistas por esta atualização poética. Podemos dividir o poema em duas macro partes: repulsa dos elementos normativos e da ordem que transformam a arte em ato burocrático e pregação de um lirismo espontâneo, sem censuras e repressões.


Leia a bela introdução do poeta ao deixar claro o caratér contestatório de seu poema através do uso de reiterações que marcam uma ruptura, um descontentamento com o tipo de lírica utilizada dado pela fastidiosa repetição do “estou farto”.


Estou farto do lirismo comedido ...
Estou farto do lirismo que pára ...
Estou farto do lirismo namorador...


A atitude do poeta mostra-se mais subversiva quando retoma novamente o “estou farto ... de todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo.” A utilização do pronome “todo” reforça a idéia de negação a tudo que não seja o lirismo que não é libertação. Novamente, o poeta distancia-se dos valores tradicionais e nega por completo as manifestações líricas que limitam a liberdade poética com expressões como “abaixo os puristas” , “de resto não é lirismo”, “não quero mais” .


Para expressar mais ainda sua insatisfação, o poeta incorpora elementos estereotipados das estéticas anteriores para ironiza-las, utilizando expressões científicas e imagens típicas do cotidiano moderno. As referências aos “lirismo comedido e bem comportado” , “lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo” e “abaixo os puristas” manifestam um desagrado do poeta com relação às valores estéticos formais de composição, típicos da estética parnasiana, no qual a rigidez controla a criação poética e faz com o que o poeta pare para verificar um vocábulo no dicionário . O lirismo contido e racional como uma fórmula matemática que o autor critica também ao revelar que este lirismo “será contabilidade tabela de co-senos” e um lirismo como forma já pré-estabelecida, sem criatividade “... secretário do amante exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc.” Esta enumeração sem vírgulas e a utilização da abreviatura têm o objetivo de ironizar , já que o poeta suprime as demais enumerações de tipos de lirismos automatizados que existem e que ele dispensa que sejam relatados.





O próprio Mario de Andrade em seu “Prefácio Interessantíssimo” comenta que o poeta tem que ter uma postura inconsciente e inesperada ao compor sua obra, tem que dar liberdade à impulsão lírica :

“ Quando sinto a impulsão lírica escrevo sem pensar o que o meu inconsciente me grita. Penso depois ...


Manuel Bandeira defende a necessidade da “impulsão lírica” que Mário de Andrade comenta ; só que utiliza a negação aos valores puristas de composição para afirmar a necessidade de uma poética de liberdade. Critica os procedimentos mecânicos adotados pelos seguidores de uma poética de ordem . Os puristas são tratados com tom áspero e demolidor :

“Abaixo os puristas...”

Convém salientar que a atitude de Bandeira utilizada em todo o poema para ironizar os valores estéticos , que destroem a originalidade , é recorrer a estereótipos que limitam a criação poética , que se caracterizam por racionais, burocráticos, bajulatórios e formais. “Estou farto (....) do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e manifestações de apreço ao sr. Diretor ...”. O poeta utiliza uma personagem tipicamente modernista, protagonista das cidades : a figura do funcionário público que trabalha em um ambiente burocrático e que apresenta em seu cotidiano uma série de formalidades que devem ser cumpridas como livro de ponto , expediente rígido e protocolo . Este tipo de lirismo é cada vez mais parodiado quando Bandeira diz que ainda é um lirismo de “manifestações de apreço ao sr. Diretor” . Esta última expressão carrega uma carga de humor e fornece uma característica bastante comum do desenvolvimento histórico do Brasil , que é o clientelismo político , cujos cargos públicos são conseguidos e/ou mantidos em troca de favores , votos recebidos e bajulações ao “sr. Diretor”. Este lirismo condenado por Bandeira é justamente aquele cujo indivíduo prefere ter uma posição de subalternidade , de bajulação à ordem vigente e de obediência à máquina burocratizante a ter como centro motivador a si mesmo.


Outra estética que Bandeira ironiza no poema é a romântica: o lirismo namorador, político, raquítico e sifilítico. Ao utilizar as formas adjetivas citadas , o poeta caracteriza os principais aspectos abordados pelos poetas românticos e com a forma verbal reafirma novamente que está farto deste tipo de lirismo também.

- Namorador : amor extremo e idealizado e sentimentalismo. - Político : amor à Pátria e o engajamento político dos poetas - Raquítico e sifilítico: o apego à solidão, ao ambiente noturno, ao “mal do século romântico” que os deixam em um estado doentio, debilitado.


No próximo post, a parte 2 de Poética com os comentários
sobre o lirismo libertador.
Inté!

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