domingo, 17 de outubro de 2010

Os Despropósitos em Exercícios de Ser Criança de Manoel de Barros



Há dias que tenho saudades de ser criança. Responsabilidades que congelam a própria vida e sonhos que se esfriam provocam um sentimento de escapismo em mim, o de que a vida adulta é desanimadora demais por mais resiliência que eu tenha. Definitivamente eu preciso dessa fuga. Queria ter mais tempo para exercitar a criança em mim. Mas, de onde vem tanta saudade? Muito simples, ela vem naturalmente porque eu não perdi minha criancice levada da breca mesmo que ela esteja escondida por aí. É inspirador ver este mundo espontâneo do ser criança, principalmente quando sabemos que ao crescer perdemos uma boa parte desta naturalidade. O mais compensador é "rejuvenescer" nestes momentos de 'ser criança', pois o peso da idade é inevitável.
Aqui está uma mulher que quer realizar os exercícios de ser criança, voltar os pensamentos a um mundo lúdico e sonhar tirando os pés calejados do chão.





Nestes meus momentos, Manoel de Barros é essencial. Maravilhoso escritor, poeta tocante com as palavras mais simples, Manoel tem um livro maravilhoso, Exercícios de ser criança que deveria ser lido por todas as idades. A obra é fascinante com uma beleza plástica incrível, pois todas as imagens são bordadas. As ilustrações foram reaizadas pela família Diniz Dumont, que combinou claramente com sintonia as palavras e imagens, as ligando e as fundindo para obter novas representações. Muito mais que imagens, a mensagem do livro é muito forte, pois fala dos despropósitos da criança e como é importante olhar o mundo de forma desproposital.





Estes despropósitos são elementos que, aos olhos do homem e do mundo real, não têm qualquer relevância, validez e propósito pertinente, mas que assumem importante função no mundo imaginário infantil como matéria prima e produto do seu universo poético. Os despropósitos aparecem como objetos, por exemplo: uma peneira que carrega água ou uma casa sobre orvalhos, como também em forma de ações como: roubar um vento e sair correndo . A mensagem deste universo poético é simplesmente o lirismo que temos que colocar em nossas atitudes, em nossas ações dia após dia. Eis uma das minhas partes preferidas: “No aeroporto o menino perguntou”: - E se o avião tropicar num passarinho? O pai ficou torto e não respondeu. O menino perguntou de novo: - E se o avião tropicar num passarinho triste? A mãe teve ternuras e pensou: Será que os absurdos não são as maiores virtudes da poesia? Será que os despropósitos não são mais carregados de poesia do que o bom senso? Ao sair do sufoco o pai refletiu: Com certeza, a liberdade e a poesia a gente aprende com as crianças. E ficou sendo”. Acho que como adultos não podemos deixar de encarar a vida de forma mais lúdica, como crianças cheias de despropósitos. Aprender a nos desapegar de qualquer limitação de pensamento, valorizando os despropósitos que muitas vezes nos trazem novos valores para toda uma vida. O despropósito rompe a limitação das “coisas normais e racionais ” e nos transporta a um universo mais sensível, criativo e inspirador. E olha que inspiração é algo que devemos ter para continuar seguindo com nossos objetivos. Com certeza, as pessoas vão nos amar pelos nossos despropósitos.

sábado, 4 de setembro de 2010

O Realismo Fantástico em Cem Anos da Solidão, de Gabriel García Márquez


Um dos maiores valores da Literatura, enquanto produção artística, é a sua capacidade de ordenar as palavras, organizar o caos e dar um sentido articulado e humano à vida, expondo a visão de mundo dos homens e trazendo elementos que podem transitar entre a fantasia e a realidade. Com isso, é possível sonhar ao folhear cada página de um livro e deixar o imaginário ir além das fronteiras de uma vida comum, palpável. Em Cem Anos de Solidão, um clássico da Literatura Latino-Americana de Gabriel García Márquez, somos convidados a entrar neste realismo fantástico, um fenômeno narrativo literário que, no primoroso trabalho do escritor, encontra o caráter histórico mesclado ao lúdico, e indiscutivelmente, eleva o valor desta obra prima da Literatura traduzida em mais de 30 línguas e catalogada pela crítica internacional como um dos melhores romances escritos na atualidade.

Cem Anos de Solidão ocorre em Macondo, um lugar geográfico imaginário, caloroso, de costumes feudais de povos do litoral norte Colombiano. Macondo nos conduz pela trajetória da família Buendía, sua extensa genealogia e os seus feitos, na qual há mortes, tragédias, enfermidades, lutas e muita solidão. Como patriarcas desta família, estão o casal José Arcádio Buendía e Úrsula Iguarán que tiveram três filhos: José Arcádio, Aureliano e Amaranta. Úrsula é a personagem que convive ‘os anos de solidão’ atravessando as diferentes gerações de filhos, netos e bisnetos, e testemunhando a história dos Buendía-Iguarán. Cem anos de solidão não é somente a história desta família, mas é uma síntese muito bem desenvolvida da história nacional, da América Latina e até mesmo da história da humanidade já que, através dos dramas desta família, há os universais que têm lugares próprios e retratam a condição humana, além de que há uma junção de elementos históricos, cronológicos e míticos que com o realismo fantástico tornam a leitura diferenciada, nos aproximando de um mundo mágico que não subtrai a triste e angustiante realidade dos fatos, reflexos de uma América Latina de constante luta por seus direitos sociais.

O realismo fantástico é dado pela relação entre o real e o imaginário. Quando a linha divisória entre o real e o imaginário é convertida em uma linguagem, estamos diante deste fenômeno. O realismo fantástico que encontramos em Cem Anos de Solidão nos sinaliza um fato bem concreto: o mundo do real. A obra é uma fusão da realidade e da fantasia e evidencia estas fronteiras através dos fatos fantásticos acontecidos em Macondo e os registrados na história, como por exemplo uma peste de insônia e de esquecimento na qual as pessoas se esquecem de nomes rotineiros; um cigano que morre e volta à vida porque não pode suportar mais a solidão; os tapetes voadores que passam pelos tetos da cidade; um sacerdote que levita após tomar uma xícara de chocolate; o herói inspirado que promove trinta e duas guerras e perde todas; e a mulher que sobe aos céus com lençóis de cordel, divinamente de corpo e alma entregues a este lúdico alumbramento.

Em todas estas situações, os personagens e elementos são primorosamente bem conduzidos pela linguagem e maestria de Gabriel Gárcia Márquez porque, ainda que os acontecimentos sejam inverossímeis, ele elabora o texto de forma que todos parecem verdadeiros e totalmente indispensáveis para desenvolver as ações. Um dos momentos mais formosos do realismo fantástico é quando há a tragédia dos grevistas das Bananeiras na qual se mistura elementos reais e irreais que produzem uma imagem literária fantasmagórica na mente do leitor. Gabriel García Márquez, como um exímio expert de seu país e cultura traz à tona o episódio da zona Bananeira de 1928, mas para dar o tom do maravilhoso, ele inclui os poderes sobrenaturais que são atribuídos aos engenheiros da empresa e também o carregamento de mortos ao mar durante o meio da noite. Nesse contexto, Jose Arcádio Segundo desenvolve um diálogo sobre Macondo no qual relata a história da Colômbia e os movimentos subversivos que indicam a luta da classe trabalhadora, o poder americano em Macondo, a injustiça social e o crime coletivo, no qual várias pessoas foram assassinadas a mando da citada companhia.

Com o recurso narrativo do realismo fantástico de, que também foi utilizado por outros escritores da América Latina como Alejo Carpentier, Gabriel García Márquez pôde unir à sua produção literária elementos da política e da sociedade com os da fantasia, desta forma, participando ativamente de uma Literatura que constrói uma dialética local e universal com forte conteúdo criativo, e que não abarca somente o significado particular de uma ficção, mas o coletivo que é relevante à humanidade, ano após ano, de forma contínua e atemporal, expressando a história do homem latino-americano, suas lutas, suas conquistas, sua solidão.

sábado, 7 de agosto de 2010

Resenha: Édipo Rei, Tragédia Grega de Sófocles em A Trilogia Tebana



A tragédia é uma das formas artísticas de drama mais fascinantes no mundo, especialmente na Literatura Grega, e uma das mais dramáticas e célebres é Édipo Rei, de Sófocles, parte da Trilogia Tebana que conta também com as tragédias Édipo Rei, Édipo Colono e Antígona (Editora Zahar). Para usufruir de sua função emotiva, de ordem bem conflitiva e tensa durante a leitura, é importante entender a estrutura da tragédia, na qual temos dois elementos fundamentais: o coro e a personagem trágica, que são responsáveis pela mola da tragédia, dinamizando o mito trágico. De um lado, o coro que é a personagem coletiva, representando a Polis, os cidadãos; de outro a personagem trágica, individual. Nesta estrutura, há polaridade: o coro que cria tensão exprime seus sentimentos, seus julgamentos, preocupações, questionadas as ações do drama do herói trágico, ora esperançosos, ora temerosos e representam o universo da cidade. De outro lado a personagem individualizada que representa o herói do passado, cuja ação representa o centro da tragédia, o universo mítico. A tensão gerada entre ambos decorre de uma oposição presente x passado, ou seja, o herói trágico que remete passado longínquo, a valores heróicos do passado, de tradições míticas em contraposição aos valores da Polis, dos pensamentos políticos e jurídicos que encenam um debate, questionamento das ações da personagem, ora aproximando-a do presente, ora recordando-a o passado mítico. A dualidade também é dada pelo lirismo do coral e a parte dialogada do drama entre as personagens. No caso de Édipo Rei, o coro é formado pelos anciões de Tebas e está presente em momentos chave como a consulta de Édipo ao cego profeta Terésias, o desespero de Édipo ao desejar morrer após desferir o golpe em seus olhos, e na contemplação do trágico desfecho do herói.

"Infeliz, sua corrida insana isola-o cada vez mais dos homens; em vão procura fugir dos oráculos que nos vêm, do centro do mundo, e que, eternamente vivos, esvoaçam em tomo dele..." (Côro)





A tragédia, por ser uma imitação de uma ação de caráter elevado, deve conter ações e palavras das personagens que justifiquem o verossímil e o necessário, mas também a ação humana não tem força em si mesma para combater a vontade dos deuses. Édipo é um herói trágico que não teve saída de sua própria condição de filho de Laio , rei de Tebas, e de Jocasta e de ter concretizado a maldição de matar o pai, casar-se incestuosamente com sua mãe. O oráculo dos deuses, o Delfos, já havia profetizado que a maldição iria ocorrer. Aconteceu. Tal desafortúnio é de beleza ímpar porque Édipo é perfeitamente o herói humano de uma tragédia com deuses implacáveis, ele é um homem que se equilibra entre a virtude e o vício, um herói “intermediário”, segundo Aristóteles, que passou da felicidade à infelicidade em conseqüência de um erro, além disso, era um príncipe em Tebas gozando de reputação, família, poder. Édipo passa da dita à desdita através de peripécia, quando tentando ouvir do servo da casa de Laio, uma resposta para viver tranqüilamente com Jocasta, livre do destino infeliz, terá o reconhecimento de que assassinou seu próprio pai e gerou filhos de sua própria mãe. Provocará temor e piedade na audiência. Édipo cai no infortúnio em decorrência de um grave erro.





A fim de evitar tal infortúnio, seus pais, ainda quando Édipo era criança, foi oferecido a um servo da casa de Laio para que a criança fosse morta, mas na ocasião o servo teve compaixão e ofereceu para que um Coríntio cuidasse da criança. Já em Tebas, procurando saber quem foi o assasino de Laio, ex-princípe naquela terra, ouviu a verdade através do vidente Terésias de que era o assassino, mas permaneceu incrédulo. Édipo estava predestinado a errar, mas foi advertido pelo oráculo, acusou Creonte de traição e as ações seguintes: a vinda do Corinto anunciando a morte de Pólibo, pai de criação de Édipo, sem nenhum vinculo de sangue; a confissão do servo da casa de Laio de que Édipo era a criança, filho de Jocasta e Laio fazem parte do que culminou na infelicidade do herói. Édipo agia, mas desconhecia que havia maldade em seus atos, só soube depois das conseqüências. Como herói trágico suas ações eram representadas em função de seu caráter – de índole intermediária, entre a mediocridade e a bondade por isso verossilmente pode incorrer em erro trágico.




"Assim não consideremos feliz nenhum homem"



Implacavelmente, Édipo Rei é um grandioso herói trágico, entregue à uma maldição. Não há como não se sensibilizar com tal infeliz destino, por isso as ações do drama tem uma íntima conexão a fim de provocar piedade e temor na audiência (o imprescindível efeito catártico). Dentro deste contexto, no final da tragédia, é que as ações assumem significação e sentido em Édipo, que ele passa a conhecer os atos maus que cometeu sem saber e que eram desventuras determinadas pelos deuses, contras as quais não podia escapar. No Êxodo, que é o desenlace trágico, ele assume o que Apolo lhe causou, mas a catástrofe, o ferimento contra si próprio, foi segundo a sua vontade humana. Mediante a infelicidade, ao saber que era assassino de Laio e esposo de sua mãe, irmão de seus filhos, o autor estipula as ações violentas que sucedem o efeito de compaixão, fere os próprios olhos, os cegando, esta ação é determinada por ele. Aqui é traçado um percurso de ordem emocional e que gera com maior intensidade sentimentos de temor e piedade, ações violentas que a mimese imita. A ação humana é determinada sem a intervenção divina, encerrando assim mais um dramático desdobramento de que o ser humano também é senhor de sua própria Tragédia.


Indicação de Indicação de Leitura Glamour Literário : A Trilogia Tebana - Édipo Rei, Édipo em Colono, Antígona, da Jorge Zahar.
ou
Édipo Rei, Domínio público E-book



terça-feira, 3 de agosto de 2010

A Evolução Poética de Manuel Bandeira


“Uns tomam éter, outros cocaína.
Eu já tomei tristeza, hoje tomo alegria...”

(Manuel Bandeira)







O ÚLTIMO POEMA
Assim eu quereria o meu último poema

Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.




Muitos são os críticos que escrevem sobre Manuel Bandeira. Escreve sobre sua capacidade de transformar o tema mais banal em poema com forte carga emotiva, sobre sua humildade, seu convívio com a presença da morte e da doença, seu talento em transformar o prosaico em sublime, o espiritual em dissoluto. Prefiro não me apegar a nenhum destes críticos em específico. Todos contribuíram para despertar em mim as percepções da arte poética de Manuel Bandeira e fazer com que eu percebesse a evolução poética de Manuel Bandeira.



O que abordarei diz respeito à maturidade alcançada por Manuel Bandeira em toda sua obra. Acompanhando a evolução poética de Manuel Bandeira, percebo como sua obra foi sofrendo a incorporação das características do movimento modernista. O poeta que proveio das vertentes do parnasianismo e simbolismo, absorveu a estética modernista em sua obra, reagindo aos formalismos das estéticas anteriores.
Nos livros A cinza das horas, Carnaval e Ritmo Dissoluto, o poeta ainda se submete às formas clássicas de composição poética; no livro Libertinagem, Bandeira atinge a libertação da forma e em Estrela da Manhã e Lira dos Cinqüenta anos, a plenitude artística. Há alguns poemas que chamaram minha atenção por deixarem transparecer vínculos com movimentos anteriores e são também estimados em minha experiência literária.


Na primeira fase de Manuel Bandeira, ocorre a utilização da rima e métrica convencionais e um lirismo melancólico, como em Desalento:


“Eu faço versos como quem chora A

De desalento... de desencanto B

Fecha o meu livro, se por agora A
Não tens motivo nenhum de pranto. B

Meu verso é sangue. Volúpia ardente... C

Tristeza esparsa... remorso vão... D

Dói-me nas veias. Amargo e quente,. C

Cai, gota a gota, do coração. D
E nestes versos de angústia rouca E

Assim dos lábios a vida corre, F

Deixando um acre sabor na boca. E

- Eu faço versos como quem morre. F

(Cinza das horas)


Em alumbramento, o poema é ambientado em uma atmosfera de sonho assim como apresenta uma regularização na forma, nos fazendo lembrar de poetas como Olavo Bilac e Cruz e Sousa neste pequeno trecho. No entanto, a importância deste poema para a obra poética de Bandeira é a tentativa de explicar o inexplicável, desvendar um mistério dado pelas reticências e a repetição. Carnaval prepara o terreno para o livro posterior de Bandeira: Ritmo dissoluto; o poeta tenta solucionar o problema da forma e antecede no poema Alumbramento a temática de um tipo de poesia que será uma das mais expressivas de Bandeira: a erótica (“... Eu via-a nua... toda nua!)”.

“ Eu vi a estrela do pastor...

Vi a licorne alvinitente!...

Vi... vi o rastro do Senhor! ...

E vi a Via Láctea...
Vi Comunhões... capelas... véus...
Súbito... alucinadamente...”





Em Libertinagem, além de poemas paradigmas da estética modernista como os que analisei em posts anteriores: Poética e Vou-me embora pra Pasárgada; ainda encontramos poemas como Não sei dançar que possuem certa carga de amargura, mas se no plano temático ainda encontra-se certo tom melancólico, no plano técnico o poeta se distancia do convencionalismo da forma, compondo em versos livres.



“Uns tomam éter, outros cocaína.
Eu já tomei tristeza, hoje tomo alegria
Tenho todos os motivos menos um de ser triste.
Mas o cálculo das probabilidades é uma pilhéria...
Abaixo Amiel!
E nunca lerei o diário de Maria Bashkirtseff"








Após Libertinagem, Manuel Bandeira desenvolve tanto a temática de seus poemas como a prática poética, alcançando maior plenitude artística. O poeta busca novas formas de fazer poético; como poesia social e erótica; em poemas como “boi-morto” e “a arte de amar”. Estes tipos de poesia apresentam uma elaboração mais conceitual, de renovação da linguagem, de temas pertinentes à sociedade e/ou a condição humana. Elementos como matéria e espírito, amor como ato físico e amor como experiência espiritual constituem o poema “A arte de amar”, no qual o poeta tematiza a relação amorosa.



Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação
Não noutra alma
Só em Deus – ou fora do mundo.


As almas são incomunicáveis.


Deixa o teu corpo entender-se como outro corpo.


Porque os corpos se entendem, mas as almas não.


(Belo Belo)





“O lirismo de Manuel Bandeira não é o produto de experiências de laboratório, mas vem como toda verdadeira poesia, de fontes misteriosas e íntimas, exigindo para realizar-se condições especiais que não se podem forjar arbitrariamente. Apenas é forçoso acentuar a presença de tais preocupações e a importância sensível que assumem em sua obra”. (Sergio Buarque de Holanda em Manuel Bandeira : Verso e Reverso)








Relacionando a obra de Manuel Bandeira ao presente, ou seja em uma perspectiva diacrônica, meu comentário pessoal é que o poeta eternalizou sua obra, trazendo – a para a atualidade. Através da vivência, sensibilidade, percepção e reflexão da condição humana, Bandeira foi capaz de trazer ao leitor elementos atuais e tão presentes no nosso cotidiano como o amor, a infância, o desejo, a família, a morte, etc; por isso, defendo que a poesia de Manuel Bandeira é muito atual. Muitas vezes, o homem não enxerga que a arte é uma constante no dia a dia; mas quando atentamente observamos os elementos intrínsecos da criação artística de um poeta como Manuel Bandeira e como eles são recorrentes no presente; percebemos que vivenciamos estes temas todos os dias: a nostalgia da infância, o erotismo, a amargura; a luta contra a morte e a enfermidade; a busca de liberdades individuais e coletivas, o questionamento de valores morais, sociais e religiosos. O mais impressionante e atual da obra poética de Manuel Bandeira é sua capacidade de recorrência, de atuar de maneira tão real em nosso dia, de tornar banais circunstâncias tão sublimes. Muito mais que a permanência de sua obra, o próprio poeta nos ensina como superou um mau destino, com simplicidade e paixão; mesmo sabendo que a morte e a doença eram suas companheiras. Minha motivação em Bandeira é saber que a vida pode tornar-se mais bela aos olhos quando amadurecemos a tão ponto de enxerga-la com menos hostilidade, apesar das dores pessoais.


Obrigada por prestigiar Manuel Bandeira no Glamour Literário.
Que Bandeira toque a sua alma como tocou a minha. Inté!

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Análise Crítica: Vou-me embora pra Pasárgada, Manuel Bandeira


“Vou-me embora pra Pasárgada” foi o poema de mais longa gestação em toda minha obra. Vi pela primeira vez esse nome de Pasárgada quando tinha os meus dezesseis anos e foi num autor grego. [...] Esse nome de Pasárgada, que significa “campo dos persas”, suscitou na minha imaginação uma paisagem fabulosa, um país de delícias [...]. Mais de vinte anos depois, quando eu morava só na minha casa da Rua do Curvelo, num momento de fundo desânimo, da mais aguda doença, saltou-me de súbito do subconsciente esse grito estapafúrdio: “Vou-me embora pra Pasárgada!”.
(Manuel Bandeira)



VOU-ME EMBORA PRA PASÁRGADA




Vou-me embora pra Pasárgada

Lá sou amigo do rei

Lá tenho a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada


Vou-me embora pra Pasárgada

Aqui eu não sou feliz

Lá a existência é uma aventura

De tal modo inconseqüente

Que Joana a Louca de Espanha

Rainha e falsa e demente

Vem a ser contraparente

Da nora que nunca tive


E como farei ginástica

Andarei de bicicleta

Montarei em burro brabo

Subirei no pau-de-sebo

Tomarei banhos de mar!

E quando estiver cansado

Deito na beira do rio

Mando chamar a mãe-d’água


Pra me contar as histórias

Que no tempo de eu menino

Rosa vinha me contar

Vou-me embora pra Pasárgada


Em Pasárgada tem tudo

É outra civilização

Tem um processo seguro

De impedir a concepção

Tem telefone automático

Tem alcalóide à vontade

Tem prostitutas bonitas

Para a gente namorar


E quando eu estiver mais triste

Mas triste de não ter jeito

Quando de noite me der

Vontade de me matar

- Lá sou amigo do rei –

Terei a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada




A evasão para uma outra realidade da diferente do poeta é uma das temáticas de “Vou-me embora pra Pasárgada”, poema de Manuel Bandeira em que o poeta busca uma espécie de paraíso para vivenciar os atos comuns da vida , os quais não puderem ser vivenciados devido à doença. Este poema tem um caráter biográfico a partir do momento que é influenciado pelas aspirações do poeta em buscar a felicidade, que foi impedida devido às dores pessoais. Pasárgada é uma alegoria do paraíso, representante do mito da felicidade no qual Manuel Bandeira tem liberdade de escolher a mulher que quer, na cama que desejar.

Novamente são dois extremos que são abordados pelo poeta: a realidade de dois mundos distintos, o presente e o imaginário; o que se nega e o que se deseja.

Um recurso utilizado neste poema é a intertextualidade; aqui utilizada em forma de paródia, burlesca. A retomada de um poema romântico com intenção sarcástica.

O poema aproxima-se de Canção de Exílio de Gonçalves Dias no sentido de oposição entre o cá e o lá, um cá hostil e um lá acolhedor; no entanto em Gonçalves Dias o poema corresponde a uma idealização do Brasil em oposição a Portugal, devido ao exílio. Bandeira constrói esta oposição entre cá e lá de modo a projetar um futuro que se torna real; uma Pasárgada construída em razão da necessidade de um espírito que busca liberdade e que também prega uma liberdade ao leitor, pois a Pasárgada apresenta – se desprovida de significado na língua. O significado vago permite que a imaginação crie um espaço psicologicamente ideal, livre de qualquer carga social.

A liberdade dada pelo poeta já é observada na primeira estrofe:



“Vou-me embora pra Pasárgada

Lá sou amigo do rei

Lá tenho a mulher que eu quero

Na cama que escolherei...”



Bandeira coloca o sofrimento de lado e resolver ser feliz, agindo inconseqüentemente, livre de obrigações. Neste reino, ele é amigo do rei e pode escolher aleatoriamente a mulher e a cama. Um das características da poesia de Manuel Bandeira é a manifestação do amor, do erotismo, da mulher, da beleza, do desejo que transcendem até mesmo o espiritual como no belo poema Arte de amar “... Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo/ Porque os corpos se entendem, mas as almas não”. A tônica forte do amor como ato físico, que dispensa até a interferência da alma que “... só em Deus (...) pode encontrar satisfação...” Em Vou –me embora pra Pasárgada, o amor e o desejo apresentam-se consideravelmente, despidos de qualquer inibição imposta pela sociedade. Bandeira pode escolher qualquer mulher e qualquer cama. O sexo aparece de forma liberada em oposição ao cerceamento causado pelos valores morais, religiosos e sociais. Na Pasárgada de Bandeira “... tem prostitutas bonitas para a gente namorar”. Neste paraíso, as imagens são colocadas de modo a delimitar o mundo que não traz felicidade ao poeta (“Aqui não sou feliz”) daquele na qual a “existência é uma aventura /de tal modo inconseqüente”.




Recomendo este livro de David Arrigucci Jr :
uma crítica literária à altura de sua inspiração Bandeirense


Este poema retoma elementos diversos da obra poética de Manuel Bandeira – como relatado por Davi Arrigucci “... o confessional, da memória biográfica; o poético-crítico, intelectual e imaginativo, a que não falta o caráter visionário ou onírico da consideração da poesia enquanto transe ou alumbramento – fundindo tudo numa forma especial de balanço de uma experiência poética”.[1]


Com relação à memória biográfica, Bandeira apresenta de forma latente o retorno à infância, que aparece no poema como tempos felizes, tempos no qual o poeta anda de bicicleta, monta em burro brabo, sobe no pau de sebo e toma banho de mar. A Pasárgada de Bandeira alinha todos os tipos de liberdade: a amorosa, a sexual e até mesmo a liberdade de voltar à infância. Considerando a vida de Manuel Bandeira e o convívio que o poeta teve com o tema da morte e da doença, que o fez até mesmo a abandonar os estudos; o poema retrata o tema da infância como um anseio de recuperar o tempo perdido, de reviver a ternura o mito que ficou arquivado na memória. A evasão é a recuperação da infância, pois a qualquer momento o poeta pode parar de brincar e chamar a mãe – d ´ água para lhe contar as historias da infância :



“... e quando tiver cansado

Deito na beira do rio

Mando chamar a mãe-dágua

Pra me contar as histórias

Que no tempo de eu menino

Rosa vinha me contar

Vou – me embora pra Pasárgada


A nostalgia da infância é tema que ressurge sempre na poesia de Manuel Bandeira. Em poemas como “Profundamente”, “Evocação do Recife” e “Infância”, o poeta relembra os tempos de infância e a família. A oposição entre criança e adulto, tempo presente e tempo passado é reconstruída como modalidade de fuga, a ponto de se questionar que o tempo passado pode ter sido bem melhor que o tempo presente, por isso a necessidade de evasão e recuperação destes momentos.


O humor modernista e a retomada de termos tidos como “modernos” são empregados por Bandeira para caracterizar a completude do paraíso chamado Pasárgada. O poeta afirma que lá tem de tudo; uma civilização que tem até mesmo um processo seguro que evita a concepção e telefone automático; ou seja, elementos caracterizadores da vida moderna. A incorporação do cotidiano, tão freqüente no movimento modernista, é utilizada pelo poeta com grande carga poética. Manuel Bandeira é um dos poetas modernistas mais reconhecidos por ter uma temática capaz de transformar temas “triviais” em matéria – prima de sua obra poética.


“... o ideal da poética de Bandeira é o de uma mescla estilística inovadora e moderna, uma vez que persegue uma elevada emoção poética através das palavras mais simples de todo dia. Para o poeta, o alumbramento, revelação poética da poesia, pode dar-se no chão do mais “humilde cotidiano”, de onde o poético pode ser desentranhado , à força da depuração e condensação da linguagem, na forma simples e natural do poema.”[2]


Na última estrofe do poema, Bandeira dá aos versos um caráter de amargura e desespero extremo, cujo campo semântico nos recorda temas como a morte, tristeza e suicídio (“E quando eu estiver mais triste/ mas triste de não ter jeito/ quando de noite me der/ vontade de me matar”). Este recurso serve para destacar a oposição que segue nos versos seguintes, nos quais a Pasárgada é o único local no qual o poeta pode ir e libertar-se deste sofrimento; a Pasárgada que é a solução para as tristezas humanas; quando o poeta estiver no extremo de desespero e tristeza, até mesmo a ponto de se matar; lá ele encontrará a amizade, o amor, o prazer. Na Pasárgada de Manuel Bandeira há liberdade estética e libertinagem.



Citações 1 e 2 , do mais que recomendado livro: Humildade, paixão e morte: A poesia de Manuel Bandeira, de Davi Arrigucci Jr, Cia das Letras.

domingo, 25 de julho de 2010

Análise Crítica: Poética, de Manuel Bandeira (Parte2)



Na primeira parte da análise de Poética,
a negação tem o objetivo também de criar novas possibilidades e estimular a ruptura com os valores passados. Ao mesmo tempo em que Bandeira nega os valores através da repulsa, ele defende uma nova ordem e estabelece uma nova proposta nesta segunda parte : uma proposta de conscientização do fazer poético autêntico e o desejo de Bandeira por um lirismo libertador .


O lirismo libertador defendido por Bandeira está dividido no campo poético em duas imagens :



- Lingüística : “Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis...”


- Comportamental :
... o lirismo dos loucos O lirismo dos bêbados O lirismo difícil e pungente dos bêbados O lirismo dos clowns de Shakespeare “
Manuel Bandeira defende a lírica livre de formalidades ao reforçar que todas as palavras, construções e ritmos, em especial os barbarismos universais, sintaxes de exceção e os inumeráveis ritmos devem participar da criação poética pois são manifestações lingüísticas naturais, inconscientes e movidas pelo impulso. O recurso utilizado para reforçar o uso destas formas de expressão é dado através da utilização de palavras como “todas” , “todos” “sobretudo”. Manuel Bandeira utiliza também, de forma bastante perspicaz , palavras que retomam a “exceção da exceção” como barbarismos e sintaxes, que são relevantes na criação poética porque são manifestações espontâneas do fazer poético, inclusive da estética modernista e acaba dimensionando tais recursos adjetivando-os como “universais” e “inumeráveis” .






No campo comportamental, o poeta utiliza de forma bastante inteligente , a defesa de um lirismo de loucos, bêbados e clowns. Mas por que Bandeira utilizou estes tipos humanos para pregar a liberdade artística? Estas personagens simbolizam tipos humanos conhecidos por seus desequilíbrios de sanidade (louco), conduta (bêbado) e seriedade (palhaço), ou seja, se comportam de maneira espontânea, sem censuras e repressão. Podemos dizer que rompem com as regras sociais , de “lirismo” bem comportado, por isso , funcionam como símbolos de liberdade de padrões pré-estabelecidos. Bandeira apela pela necessidade de libertar os conteúdos humanos interiorizados e os freios inibidores impostos pela sociedade, assim como o fazem loucos , bêbados e clowns
.


O último verso sintetiza todo o poema:

“- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação”.


Neste último verso, o poeta utiliza a dupla negação para reafirmar o propósito de todos os versos anteriores: o de demonstrar a insatisfação com os valores estéticos tradicionais. O poeta projeta neste verso o seu desabafo, a sua não – aceitação da incompletude da arte poética tradicional, do lirismo que não é libertação. O poeta quer deixar claro que não quer mais nenhum lirismo comedido e bem comportado; negando as formas tradicionais de arte para afirmar a liberdade poética como forma de arte autêntica.



No próximo post, abordarei mais sobre a arte literária de Manuel Bandeira,
apresentando a análise de um dos meus poemas preferidos
Vou-me embora para Pasárgada.
Inté!

25 de Julho - Feliz Dia do Escritor



As palavras da sabedoria de Carlos Drummond de Andrade resumem o que torna um escritor tão necessário à vida. Um único olhar que abre caminho para um mundo de descobertas. Feliz Dia do Escritor!



Escritor:
não somente uma certa maneira especial de ver as coisas, senão também uma impossibilidade de as ver de qualquer outra maneira.


quinta-feira, 22 de julho de 2010

Análise Crítica: Poética, de Manuel Bandeira (Parte1)


POÉTICA
(Manuel Bandeira)

Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e
[manifestações de apreço ao Sr. diretor

Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o cunho verná-
[culo de um vocábulo
Abaixo os puristas

Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis

Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo.

De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante exemplar com
[cem modelos e cartas e as diferentes
[ maneiras de agradar às mulheres, etc.

Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e pungente dos bêbados
O lirismo dos clowns de Shakespeare

- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.


Desde a primeira leitura, percebe-se que a Poética tem vínculos com a estética modernista. É possível reconhecer pela estrutura poética a utilização de versos livres, de reiterações, de imagens que negam os valores ultrapassados das estéticas anteriores, de supressão da pontuação, etc. Todas estas formas traduzem a liberdade plena de forma, defendida pelos modernistas. O que caracteriza o versolivrismo aqui é uma mudança de atitude e também de crítica : a sílaba deixa de ser a unidade de medida e a combinação de pausas e entoações passa a ser fator relevante.







Bandeira emprega várias imagens para iniciar o processo de negação dos valores poéticos do passado e depois de defesa de um lirismo libertador; imagens que são modeladas em linguagem cotidiana e que estão baseadas na associação destas idéias de modo a despertar o interesse por uma atualização da inteligência artística . O poema Poética de Manuel Bandeira é um dos paradigmas da estética modernista e uma das mais conhecidas bandeiras de luta dos modernistas por esta atualização poética. Podemos dividir o poema em duas macro partes: repulsa dos elementos normativos e da ordem que transformam a arte em ato burocrático e pregação de um lirismo espontâneo, sem censuras e repressões.


Leia a bela introdução do poeta ao deixar claro o caratér contestatório de seu poema através do uso de reiterações que marcam uma ruptura, um descontentamento com o tipo de lírica utilizada dado pela fastidiosa repetição do “estou farto”.


Estou farto do lirismo comedido ...
Estou farto do lirismo que pára ...
Estou farto do lirismo namorador...


A atitude do poeta mostra-se mais subversiva quando retoma novamente o “estou farto ... de todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo.” A utilização do pronome “todo” reforça a idéia de negação a tudo que não seja o lirismo que não é libertação. Novamente, o poeta distancia-se dos valores tradicionais e nega por completo as manifestações líricas que limitam a liberdade poética com expressões como “abaixo os puristas” , “de resto não é lirismo”, “não quero mais” .


Para expressar mais ainda sua insatisfação, o poeta incorpora elementos estereotipados das estéticas anteriores para ironiza-las, utilizando expressões científicas e imagens típicas do cotidiano moderno. As referências aos “lirismo comedido e bem comportado” , “lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo” e “abaixo os puristas” manifestam um desagrado do poeta com relação às valores estéticos formais de composição, típicos da estética parnasiana, no qual a rigidez controla a criação poética e faz com o que o poeta pare para verificar um vocábulo no dicionário . O lirismo contido e racional como uma fórmula matemática que o autor critica também ao revelar que este lirismo “será contabilidade tabela de co-senos” e um lirismo como forma já pré-estabelecida, sem criatividade “... secretário do amante exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc.” Esta enumeração sem vírgulas e a utilização da abreviatura têm o objetivo de ironizar , já que o poeta suprime as demais enumerações de tipos de lirismos automatizados que existem e que ele dispensa que sejam relatados.





O próprio Mario de Andrade em seu “Prefácio Interessantíssimo” comenta que o poeta tem que ter uma postura inconsciente e inesperada ao compor sua obra, tem que dar liberdade à impulsão lírica :

“ Quando sinto a impulsão lírica escrevo sem pensar o que o meu inconsciente me grita. Penso depois ...


Manuel Bandeira defende a necessidade da “impulsão lírica” que Mário de Andrade comenta ; só que utiliza a negação aos valores puristas de composição para afirmar a necessidade de uma poética de liberdade. Critica os procedimentos mecânicos adotados pelos seguidores de uma poética de ordem . Os puristas são tratados com tom áspero e demolidor :

“Abaixo os puristas...”

Convém salientar que a atitude de Bandeira utilizada em todo o poema para ironizar os valores estéticos , que destroem a originalidade , é recorrer a estereótipos que limitam a criação poética , que se caracterizam por racionais, burocráticos, bajulatórios e formais. “Estou farto (....) do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e manifestações de apreço ao sr. Diretor ...”. O poeta utiliza uma personagem tipicamente modernista, protagonista das cidades : a figura do funcionário público que trabalha em um ambiente burocrático e que apresenta em seu cotidiano uma série de formalidades que devem ser cumpridas como livro de ponto , expediente rígido e protocolo . Este tipo de lirismo é cada vez mais parodiado quando Bandeira diz que ainda é um lirismo de “manifestações de apreço ao sr. Diretor” . Esta última expressão carrega uma carga de humor e fornece uma característica bastante comum do desenvolvimento histórico do Brasil , que é o clientelismo político , cujos cargos públicos são conseguidos e/ou mantidos em troca de favores , votos recebidos e bajulações ao “sr. Diretor”. Este lirismo condenado por Bandeira é justamente aquele cujo indivíduo prefere ter uma posição de subalternidade , de bajulação à ordem vigente e de obediência à máquina burocratizante a ter como centro motivador a si mesmo.


Outra estética que Bandeira ironiza no poema é a romântica: o lirismo namorador, político, raquítico e sifilítico. Ao utilizar as formas adjetivas citadas , o poeta caracteriza os principais aspectos abordados pelos poetas românticos e com a forma verbal reafirma novamente que está farto deste tipo de lirismo também.

- Namorador : amor extremo e idealizado e sentimentalismo. - Político : amor à Pátria e o engajamento político dos poetas - Raquítico e sifilítico: o apego à solidão, ao ambiente noturno, ao “mal do século romântico” que os deixam em um estado doentio, debilitado.


No próximo post, a parte 2 de Poética com os comentários
sobre o lirismo libertador.
Inté!

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Literatura Brasileira: Por que amar Manuel Bandeira?

“Sou poeta de circunstâncias e desabafos”

(Manuel Bandeira)






A própria experiência poética de Manuel Bandeira revelou um poeta preocupado pela busca apaixonada de expressão de temas cotidianos , da infância e família, de valores estéticos e de desejos eróticos. Manuel Bandeira perseguiu, de maneira constante, novas maneiras de expressão de sua poesia e conseguia extrair uma forte carga lírica de seus poemas. Poemas consagrados como poética e Vou-me embora para Paságarda estão no livro Libertinagem (1930) e foram construídos como um expressão de uma das fases mais importantes da poesia de Manuel Bandeira no Modernismo Brasileiro: a fase da liberdade total no fazer poético, no qual o autor apresenta uma maturidade maior, livre das influências simbólicas e parnasianas da 1ª fase de sua poesia e transforma sua poesia com novo ritmo, linguagem e modo de enxergar a vida. Podemos dizer que nesta fase de liberdade, o poeta adquire uma forte consciência que permeia a concepção de sua poesia e ultrapassa a fronteira entre o simbólico e o real, entre o “eu” e o mundo externo. Fase subversiva e contestadora de valores estéticos; mas também libertina na qual o poeta incorpora elementos dissolutos em sua criação poética como o erotismo, a vivência dos prazeres extremos de uma Pasárgada e os momentos de alumbramento.








Por que amar este magnífico poeta? Relacionando sua obra ao presente, meu comentário pessoal é que o poeta eternalizou sua produção, trazendo – a para a atualidade. Através da vivência, sensibilidade, percepção e reflexão da condição humana, Bandeira foi capaz de trazer ao leitor elementos atuais e tão presentes no nosso cotidiano como o amor, a infância, o desejo, a família, a morte, etc; por isso, defendo que a poesia de Manuel Bandeira é muito atual. Muitas vezes, o homem não enxerga que a arte é uma constante no dia a dia; mas quando atentamente observamos os elementos intrínsecos da criação artística de um poeta como Manuel Bandeira e como eles são recorrentes no presente; percebemos que vivenciamos estes temas todos os dias: a nostalgia da infância, o erotismo, a amargura; a luta contra a morte e a enfermidade; a busca de liberdades individuais e coletivas, o questionamento de valores morais, sociais e religiosos.


O mais impressionante e atual da obra poética de Manuel Bandeira é sua capacidade de recorrência, de atuar de maneira tão real em nosso dia, de tornar sublimes circunstâncias tão banais. Muito mais que a permanência de sua obra, o próprio poeta nos ensina como superou um mau destino, com simplicidade e paixão; mesmo sabendo que a morte e a doença eram suas companheiras. Minha motivação em Bandeira é saber que a vida pode tornar-se mais bela aos olhos quando amadurecemos a tão ponto de enxerga-la com menos hostilidade, apesar das dores pessoais.



Nos próximos posts, alguns poemas de Manuel Bandeira estarão aqui (com as merecidas análises), na sua encantadora liberdade poética e libertinagem. Inté!

sábado, 17 de julho de 2010

Para a realidade da vida, palavras mágicas de Grande Sertão Veredas, de João Guimarães Rosa



O mais importante e bonito no mundo é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas - mas elas vão sempre mudando.

O mundo é mágico. As pessoas não morrem, ficam encantadas... Esperar é reconhecer-se incompleto.

O homem nasceu para aprender aprender tanto quanto a vida lhe permita.
(João Guimarães Rosa)


As palavras mágicas de Grande Sertão Veredas, um das obras literárias mais importantes do Brasil são palavras reais de um ser em transformação. Desde que as li pela primeira vez, conclui que ainda não fui terminada; sou um ser incompleto da forma mais otimista que há, e que precisa mudar a cada dia, reagir às mudanças positivamente (e negativamente, porque mudar faz bem e também dói). Porém, se por um lado o prazer pela mudança reacende a magia do viver, por outro reserva uma boa dose de paciência e da angústia da espera, há que transitar entre esses sentimentos extremos, mas conciliáveis para um mundo mais encantado.


Ao longo dessa jornada de aprendizagem no sertão que é a árida vida, não há maior desafio do que o ato de esperar, principalmente esperar de forma ativa, e nem maior ato de autoconhecimento do que se reconhecer incompleto.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Não te rendas, Mario Benedetti está aqui



Não te rendas
, ainda é tempo
De se ter objetivos e começar de novo,
Aceitar tuas sombras,
Enterrar teus medos
Soltar o lastro,
Retomar o vôo.


Não te rendas que a vida é isso,
Continuar a viagem,
Perseguir teus sonhos,
Destravar o tempo,
Correr os escombros
E destapar o céu.


Não te rendas, por favor, não cedas,

Ainda que o frio queime,
Ainda que o medo morda,
Ainda que o sol se esconda,
E o vento se cale,
Ainda existe fogo na tua alma.
Ainda existe vida nos teus sonhos.


Porque a vida é tua e teu também o desejo
Porque o tens querido e porque eu te quero
Porque existe o vinho e o amor, é certo.
Porque não existem feridas que o tempo não cure.
Abrir as portas,
Tirar as trancas,
Abandonar as muralhas que te protegeram,


Viver a vida e aceitar o desafio,
Recuperar o sorriso,
Ensaiar um canto,
Baixar a guarda e estender as mãos
Abrir as asas
E tentar de novo
Celebrar a vida e se apossar dos céus.


Não te rendas, por favor, não cedas,
Ainda que o frio te queime,
Ainda que o medo te morda,
Ainda que o sol ponha e se cale o vento,
Ainda existe fogo na tua alma,
Ainda existe vida nos teus sonhos
Porque cada dia é um novo começo,
Porque esta é a hora e o melhor momento
Porque não estás sozinho, porque eu te amo





Mario Benedetti, poeta e escritor uruguaio, sempre tem palavras para os momentos mais introspectivos , aqueles cujo silêncio parece silenciar toda uma vida, ainda que haja um coração gritante. Gritando por socorro. São palavras sobre amor por um outro alguém, amor pela vida, amor por nós mesmos quando tudo parece perdido.

O poema acima é um canto pelo amor próprio e um dos mais belos legados líricos do escritor que faleceu no ano passado. É um mensagem de incentivo e superação, de companheirismo e paixão e, o melhor, sem ser nada piegas. Mario mantém a sensibilidade da mensagem com a racionalidade de quem precisa se erguer de uma situação ou , pelo menos, não cair de uma vez por todas e ele tem uma estilística muito particular, que conversa com a alma da gente; ele é Benedetti, único e, para sempre o expressivo escritor Latino Americano que conhece magistralmente a condição humana.

O título é de impacto: Não te rendas (título original, No te rindas) faz uma belíssima menção para que o fracasso e a derrota não sejam aceitos, ou melhor dizer: Não se submeta à passividade, seja resiliente em uma situação difícil. O poema clama por uma atitude positiva pois ainda há tempo de reverter medo em coragem, abandono em amor, lágrimas em sorrisos. Existirão fases de dificuldades como os invernos da vida, a escuridão da solidão, mas serão somente fases. A alma cheia de sonhos ainda estará aqui.


quarta-feira, 14 de julho de 2010

A dor e a delícia de ser o que é

Cada um sabe a dor
e a delícia de ser o que é
(Dom de Iludir, Caetano Veloso)







Estava pensando na maestria deste trecho do poeta Caetano Veloso. Quantas vezes não somos persuadidos e confrontados a mudar nosso jeito de ser, como se tivessemos que anular a nós mesmos, descaracterizando nosso eu; como se fossemos seres com defeito de fabricação, não dignos de merecer algo, criticados por não ter determinada virtude ou comportamento, açoitados pela necessidade de seguir um padrão de domesticação que não tem nada a ver com o que queremos. Estou com Caetano Veloso, "cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é". Não há maior liberdade do que ser nós mesmos, com delícias e dores.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

O último poema para começar a semana



Quero sonhar com Manuel Bandeira essa noite. Sonhar e ver flores abraçando-me na madrugada.


Ele, Drummond e Mario Quintana
são os poetas que mais tocam meu coração. Gosto de sonhar e pensar Bandeira quando minha alma está naqueles dias de liberdade e libertinagem, porque ele merece minha inspiração. Muitos críticos escrevem sobre Manuel Bandeira. Escreve sobre sua capacidade de transformar o tema mais banal em poema com forte carga emotiva, sobre sua humildade, seu convívio com a presença da morte e da doença, seu talento em transformar o prosaico no sublime, o espiritual em dissoluto, entre tantas coisas. Quisera eu viver a Pasárgada de teu poema, porque com certeza eu seria realmente muito mais feliz. Na verdade, busco a felicidade mesmo sem buscá-la tão diretamente, porque quando leio M. Bandeira, ele desperta em mim aquele lirismo libertador, o lirismo de sua poética:



... o lirismo dos loucos
o lirismo dos bêbados o lirismo difícil e pungente dos bêbados o lirismo dos clowns de Shakespeare. (do Poema Poética)


Bandeira sempre me inspira como se ele compreendesse o que eu sentisse. Oras, ele compreende sim, em algum lugar no lirismo dos poetas e dos loucos.


O ÚLTIMO POEMA
Assim eu quereria o meu último poema Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas Que tivesse a beleza das flores sem perfume A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Citação filosófica do Dia: Humano, demasiado humano – F. Nietzsche

“Dentre as coisas que poderiam levar um pensador à loucura, está o reconhecimento de que o ilógico é necessário ao ser humano e de que do ilógico brotam tantas maravilhas. O absurdo está nas paixões, na fala, na arte, na religião e, sobretudo, em tudo o que confere valor à vida. Só os muito ingênuos acreditam poder transformar a natureza humana em pura lógica, e, a caminho desse objetivo, quantas coisas são perdidas!”.

( extraído de Humano, demasiado humano – F. Nietzsche)

Foto: Werner Horvath. Friedrich Nietzsche – three Metamorfoses.