sábado, 26 de janeiro de 2013

Suspensas Fugas, Cecília Meireles


 
"PARA PENSAR EM TI todas as horas fogem:
o tempo humano expira em lágrima e cegueira.
tudo são praias onde o mar afoga o amor.

Quero a insônia, a vigília, uma clarividência
deste instante que habito - ai meu domínio triste!

Vejo a flor, vejo no ar a mensagem das nuvens,
- e na minha memória és mortalidade - vejo as datas, escuto o próprio coração.

E depois silêncio. E teus olhos abertos
nos meus fechados. E esta ausência em minha boca:
pois bem sei que falar é o mesmo que morrer.

Da vida à vida, suspensas fugas".

In: 'Solombra", 1963.

 





"Cecília, Cecília.
Ela sabe das coisas do Amor e de sua ausência  
De tanto amar e, na dor que vem da memória, 
que insiste no coração tocar
o escape é a rota para não no Amor pensar,  
Ele nunca é esquecido, mesmo quando os olhos se fecham
em um sono que deseja muito mais um afetivo sonho
Ele nunca se ausenta, ainda que haja o desejo
de uma fuga que sempre ficará em suspenso."
(Cristiane Costa) 

sábado, 16 de junho de 2012

Dormir e despertar para sonhar , fragmentos inspirados em Mario Quintana



Eu quero dormir. Será que o sono é uma fuga ou a esperança de encontrar o meu verdadeiro mundo em sonhos?

Não quero acordar. A vida é áspera. No conforto do travesseiro macio, minha alma repousa fascinada com a leveza de sublimes sonhos.
 



Na vida, sou múltipla na intensidade do autêntico ser. Sou pessimista. Sou otimista. Sou triste. Sou feliz. Estou morta. Estou viva.

Vivo a simultaneidade de uma noite de sono com pesadelos e sonhos.

Quero somente despertar para um mundo novo.


(Cristiane Costa)


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Inspirado em meus bocejos com desejos, decepções  e superações e, em Mario Quintana, meu poeta simultâneo.

Poemas de Mario Quintana e arte de Picasso (Esboço de Sleeping woman)


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Eu amo o mundo! Eu detesto o mundo! Eu creio em Deus! Deus é um absurdo! Eu vou me matar! Eu quero viver! 
- Você é louco?
- Não, sou poeta. 

O morto
Eu estava dormindo e me acordaram
E me encontrei, assim, num mundo estranho e louco...
E quando eu começava a compreendê-lo
Um pouco,
Já eram horas de dormir de novo!


(Simultaneidade, de Mario Quintana)

domingo, 1 de maio de 2011

Um mundo, uma alma, tanto de Florbela Espanca



"O meu mundo não é como o dos outros,
Quero demais, exijo demais,
Há em mim uma sede de infinito,
Uma angústia constante que nem eu mesma compreendo,
Pois estou longe de ser uma pessimista;
Sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada.
Uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudade... Sei lá de quê!"

(Florbela Espanca)

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Cartas a Theo, Arte Pós Impressionista e meu querido Van Gogh


Eu gosto de Van Gogh, do Van Gogh pós-impressionista que inaugura uma nova forma de captar cores, pinceladas, composição e tela, do Van Gogh pré-expressionista que pinta de forma frenética quase visceral, explorando emoções em uma época de impressões, do Van Gogh "suicida da sociedade" que na reclusão e solidão fez sua arte em resposta à sua exclusão. Eu amo Van Gogh, o pintor incompreendido, por N razões incompreendidas. Eu amo suas pinturas simples por captarem a densidade e a expressividade de objetos e pessoas, por ter encontrado na humilde vida e na morte um caminho para a imortalidade, por ter pintado seus auto-retratos retratando dramas tão individuais a cada pincelada.







É irônico perceber que as grandes mudanças da história, neste caso, da Arte moderna vem dos mais incompreendidos: Van Gogh "o suicida", Paul Gauguin "o selvagem"...Todos se exilaram longe de Paris, o centro da Arte. Na fuga e no isolamento, encontraram um ambiente de pesquisa, de fazer arte testando novas sensações e alterando a estrutura de seus trabalhos. E nessa viagem, acompanhei Van Gogh em meus pensamentos fugazes, como se eu estivesse no Sul da França, seu porto seguro em meio à solidão. Neste lugar de introspecção, Van Gogh encontrou algo que amava - uma paisagem do Japão. Dizem que o Sul da França era assim...Ele amava arte japonesa, principalmente as gravuras: a simplicidade nas cores e nas composições. Assim ele queria sua arte, alegre e simples. Densa ela também se tornou, assim como densos ficaram seus pensamentos. Pensamentos que convergiam em pinceladas em sintonia com suas emoções. Era triste, era feliz, ansiava por vida e por morte. Pensamentos contraditórios, instáveis produzindo traços fortes em pinturas turbulentas. Assim foram seus últimos auto-retratos.


As naturezas mortas vibravam com a luz do sol atravessando como labaredas de fogo sobre a matéria e seu corpo, como matéria, queria estar morto a ponto de Van Gogh se auto-punir. Autoflagelação eis o que lhe ocorreu intempestivamente. Cortou um pedaço da própria orelha, queria ver se a dor física era maior que a dor do espírito. Entre dores em crises, a maior foi em um domingo, ao passear pelos trigais, lá ele se silenciou para sempre.





Os ciprestres, 1889 . Um dos meus preferidos.

Pertence a fase febril e conturbada.
pinceladas frenéticas que se afastam da realidade objetiva.


Eu gosto do Van Gogh louco. Na sua loucura, foi livre. Na sua liberdade, foi artista. Na sua arte, foi mais livre. Livre para pintar emoções internas e ser precursor de uma arte de expressões..que amo. Em carta ao irmão Théo, o livro dos escritos de Van Gogh, ele comenta: "As emoções, são por vezes, tão fortes que trabalho sem ter consciência de estar trabalhando... e as pinceladas acodem em sequência e coerência idênticas à de palavras numa fala ou carta."

Se uma última pincelada é como uma última palavra, aqui encerro a minha voz interior sobre este meu amado pintor.




segunda-feira, 21 de março de 2011

Monólogo do Desassossego: Diálogos teatrais com Fernando Pessoa



"Nós nunca nos realizamos.
Somos dois abismos - um poço fitando o céu"

(Fernando Pessoa, o Livro do Desassossego)



Durante boa parte da minha jornada literária na Universidade, tive dois companheiros inseparáveis: Fernando Pesssoa e o seu Livro do Desassossego. Eram tão íntimos de mim que eu chegava a carregar a pesada edição da Cia das Letras pelo Campus. Certamente, isso não era um sacrifício porque eles eram mais que um escritor e sua obra, eles representavam (e representam) a genialidade e a sensibilidade na Literatura, que é reflexo dos meus sentimentos, a Literatura como catalisadora e caminho para a catarse das mais profundas emoções; nessa dádiva, Fernando Pessoa é Mestre. Ter o Livro do Desassossego na cabeceira poderia ser doloroso e depressivo, mas como relata a sábia citação introdutória acima, não podemos ignorar o nosso próprio abismo e, estar nele em algumas, ou em muitas épocas da existência é ingressar no estado da mais devastadora dor, nessas horas precisamos de um bom amigo impresso ao nosso lado que nos compreenda.



"Um hálito de música ou de sonho,
qualquer coisa que faça quase sentir,
qualquer coisa que faça não pensar."



Muitos artistas sofreram na inquietação da solidão e da angústia, e foi neste desassossego que eles mais tiveram momentos de alumbramentos quando suas Artes vinham à tona, o Belo através do Horror, o Riso através da Dor. Fernando Pessoa é um deles, capaz de inspirar uma série de artistas que se identificaram com os seus desabafos. Pessoa representa tanto de nós e para nós. É um ser universal.
Suas revelações existenciais marcam nossa própria existência. Os efeitos de tais revelações são perturbadoras e, ao mesmo tempo, libertadoras porque há uma identificação daquilo que mais tememos, mas que precisamos para amadurecer e se autopreservar.







Decerto, o Livro do Desassosssego inspirou muitos artistas, uma delas, passou pela minha vida através da Dança. Era Marilena Ansaldi, renomada bailarina e atriz que ficou afastada dos palcos por 12 anos. Fui assistí-la no teatro Alfa de São Paulo em 2005 quando ela performou um Monólogo baseado em fragmentos dessa clássica obra de Fernando Pessoa, e nunca me esqueço de como a jornada dela foi o desassossego que dilacera no início, meio e fim de vários momentos existenciais. Ela se afastou de tudo que era vida - o palco. Lutou muito ao enfrentar a crise de pânico e a depressão. Desabafou a todos: "... fui abandonada por mim, isto é deixei de querer e uma náusea existencial tomou conta de mim. Parar, abandonar, matar todas as paixões. A lucidez que não conseguiria mais fazer acontecer os meus espetáculos. Acabara o vigor, a fúria, a obsessão e a entrega desvairada do meu corpo e mente... nesses últimos 12 anos fiquei escondida de tudo e de todos... e aos poucos sou tomada por um surto criativo depois de 12 anos estéreis. Aqui estou para oferecer essa fagulha do que resta de mim. Para dizer esses anos mortos, usarei como meus os fragmentos do Livro do Desassossego do único , genial, Fernando Pessoa."

E ela se desnudou no palco. Marilena corpo, alma e coração. Emoções, sensações latentes. E Pessoa em sua voz, em seu solo. Recordo-me que saí do teatro maravilhada e em choque. É impossível não entrar em crise no Desassossego Pessoano após intensa e catártica experiência. Uma crise tão contraditória. Intragável, serena, furiosa, lírica, angustiante, libertadora.. Eu gosto assim...desta crise que desnuda minhas emoções.






Este fragmento foi o momento ápice, o clímax arrebatador. Marilena curvada para baixo, olhos no chão, voz trêmula...muita chuva e angústia e muito de Fernando Pessoa no desassossego do seu coração.

Paisagem de Chuva


"Em cada pingo de chuva a minha vida falhada chora na natureza. Há qualquer coisa do meu desassossego no gota a gota, na bátega a bátega com que a tristeza do dia se destorna inutilmente por sobre a terra. Chove tanto, tanto. A minha alma é húmida de ouvi-lo. Tanto... A minha carne é líquida e aquosa em torno à minha sensação dela. Um frio desassossegado põe mãos gélidas em torno ao meu pobre coração. As horas cinzentas alongam-se, emplaniciam-se no tempo; os momentos arrastam-se. Como chove! As biqueiras golfam torrentes mínimas de águas sempre súbitas. Desce pelo meu saber que há anos um barulho perturbador de descida de água. Bate contra a vidraça, indolente, gemedoramente, a chuva..."



Post por Cristiane Costa